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Do Pastor das Migas e dos Bonecos de Estremoz Por Adelina Almeida Sedas
Cresci no Alentejo, convencida que o centro da vida e da cultura era Lisboa. A capital, pois então! Dali vinha tudo o que era digno de apreço ... Até que um dia fiz 16 anos e como prenda, o meu namorado ofereceu-me, pomposamente uma caixa de papel lustrado, decorada com fitas e laçarotes. Encantada com aquela prova de amor, agradeci sensibilizada e num alvoroço desembrulhei a prenda. Ao fim de muitos papeís, saiu da caixa um pastorzinho sem graça, de barro tosco e colorido berrante, calmamente sentado à sombra de uma azinheira de bolotas gigantes, comendo as suas migas de um tarro.
Delicadamente, agradeci, comentando que a prenda era linda, que ainda não tinha semelhante objecto, mas sempre desejara ter. Fui informada de que o pastor fazia parte de uma grande colecção de figuras de um presépio todas elas feitas segundo uma antiquíssima tradição. Se eu quisesse ... Se bem que assustada com a previsão de futuras prendas, não ousei dizer que teria preferido um anel de prata, um coraçãozinho de ouro, uma fotografia emoldurada, um lencinho de seda, enfim qualquer coisa digna de se mostrar. Mas um boneco de barro ... francamente! Guardei-o logo e resolvi dizer às minhas amigas, curiosas de tanto mistério, que a prenda era demasiado preciosa e pessoal para andar de mão em mão. Pronto, o pastorzinho foi para a caixa!
Um dia, precisei de um objecto que servisse de apoio a livros. O pastor das migas era mais do que indicado para resolver a questão. Em cima da minha mesa de trabalho, sentado à sombra da azinheira e encostado a livros, ele passou a fazer parte do meu dia a dia. Um dia, deixou de segurar livros e passou a pisa-papéis num montante desordenado de receitas de cozinha e até serviu de encosto a malvas, que insistiam em crescer tortas. Experimentou vários destinos e funções, deambulou de caixa em caixa. Certo dia, deparei com uma notícia espantosa: este tipo de bonecos pertenciam aos mais interessantes modelos da barrística portuguesa, sendo por isso valiosos. O meu pastorinho era então um homem de valor!
Passei a olhá-lo de outra forma, comecei a gostar de o ver e despertou-me a curiosadade de saber mais sobre ele e sobre os seus prometidos companheiros. Lutando contra a minha ignorância, aprendi que as peças mais antigas, recolhidas no Museu de Etnografia de Estremoz datam do séc. XVIII-XIX e surgem ligadas à tradição religiosa popular.
São, por assim dizer, uma resposta de artistas do povo à moda italiana de modelar figuras de presépio e são a versão popular dos célebres presépios portugueses da Basílica da Estrela, da Sé de Lisboa, da Madre de Deus e de S. Vicente. Muitos são os bonequeiros, que ao longo dos anos nos foram deleitando com a sua imaginação, gosto e habilidade: a Ti Ana das Peles, a Ti Gertrudes, Mariana Estopa, Mariano da Conceicão, Sabina Santos, o Lagartinho, os irmãos Ginga, as irmãs Flores e outros modelaram/modelam não só figuras de presépio ou de santos, mas muitas outras figuras fruto da observação do quotidiano, satíricas ou de caracter simbólico. O barbeiro, a mulher das castanhas, o amor é cego, a dama ao espelho, a Primavera, o leiteiro, a matança do porco renascem nas mãos de novos barristas, dispostos a continuar a tradição, ao lado do Fidalguinho (pote decorado com laços e flores), de N. Sra da Conceicão, de S. Sebastião, do presépio de altar, da procissão. Ao longo dos anos a técnica foi-se modificando e as cores antigamente usadas foram-se alterando. Alguns segredos, sobretudo no que diz respeito à mistura de cores, tintas e vernizes morreram com os artistas e hoje são muitas vezes utilizados vernizes de fabrico industrial.
O meu pastorzinho, que me acampanhou durante anos e andou em bolandas no desatino da vida de emigrante, sobreviveu ao meu desprezo e faz parte agora de uma vasta colecção de bonecos que orgulhosamente possuo. Recomendo, se for ao Alentejo não se esqueça: passe por Estremoz e visite uma das olarias. Verá que não se arrepende.
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